sábado, 24 de outubro de 2009


Uma aura azul predomina na Esquina.
Um aroma de magia - você deve conhecer - começou a chegar a meus pulmões.
Através da aura percebo surgir uma figura, caminhando em minha direção. Aos poucos distingo ser um bobo da corte. Alto. Com uma linda roupa dourada. A face toda branca com detalhes dourados e aquele chapéu com bolas que todo bobo carrega consigo.
Trazia nas mãos uma linda bola daquelas grandes e coloridas. Segurava-a com muito cuidado. Às vezes a acariciava. Tinha muita estima pela bola.
Sentou-se ao chão, cruzou as pernas e ficou a contemplar a bola. Sorria. Contemplava.
A bola passou a espagir-se. Espargiu, espargiu até que expluiu!
BUM!
Retalhos coloridos espalharam-se pelo ar e ficaram a flutuar.
A bola revelou ter em seu interior um lampião. Apagado.
Ao contemplar aquele lampião o bobo levantou!
Lançou um olhar aflito.
Passou a correr em torno do lampião.
Correu muito.
Parou. Descansou.
Voltou a correr.
Estava nessa corrida quando entre os retalhos coloridos que ainda flutuavam, surgiu um homem. Seus olhos encontravam-se vendados. Vestia uma longa bata preta e carregava na mão esquerda um singelo baú.
- Alguém pode me ajudar? - disse o homem.
- Me diz nobre senhor do que necessitas.
- Esse baú precisa se abrir. E para isso preciso encontrar o bobo da corte.
- Infelizmente não posso te ajudar. Não sei da existência de nenhum bobo aqui nas redondezas. Mas veja bem, eu carregava uma bola que desistiu de existir e mostrou carregar em seu interior um lampião apagado.
- Um lampião? O que seria um lampião?
- Não sei te explicar. Um lampião é um lampião. Quem sabe se o tocar poderá imaginar sua forma.
O bobo segurou as mãos do homem. Encaminhou-as em direção ao lampião. Percorreram, exploraram, sentiram.
- Que forma engraçada possui seu lampião.
- Não é meu. É da bola.
Ambos encontravam-se sentados carregando seus respectivos objetos.
- O que é um bobo da corte? - perguntou o bobo.
- Me disseram que eu saberia quando o encontrasse. Que todo bobo tem magia, fascínio e carrega consigo a verdade.
- Vamos continuar sentados. Quem sabe passa um bobo por aqui.
- Já estou cansado de minha viajem. Irei repousar. Mas fique atento por mim. Se algum bobo aparecer me chame.
O homem se deitou.
O bobo o observava ressonar.
Colocou seu ouvido sobre o coração do homem.
Assustou-se.
Repetiu. Dessa vez manteve-se com o ouvido, como tentando decifrar o som interno. Num repente levantou-se e levou a mão até o seu peito.
Nada.
Nenhum som.
Silêncio total.
Vazio.
Olhou para o lampião. Para o homem. Lampião. Homem.
Abaixou-se, abriu a tampa do lampião e emitiu um leve sopro.
O lampião acendeu. Uma chama viva. Resplandecente. E a aura levemente passou do azul para o escarlate, sendo possível contemplar sobre o chão alguns caixotes.
Caixotes de cores variadas. Vermelho, verde, marrom, roxo... Exatamente seis caixotes.
O bobo retirou uma bola de seu chapéu. A bola roxa. A levou até a caixa da respectiva cor. E assim fez com cada bola de seu chapéu, restando apenas uma.
Quando completou a tarefa o primeiro caixote se abriu. De dentro saiu um Rei. Vestindo um lindo manto e portando uma majestosa coroa.
Do segundo uma Rainha. Com o mesmo manto, no entanto com coroa diferente, um pouco menos majestosa.
Do terceiro um Bispo. Um Bispo velho e sereno.
Do quarto um cavalo. Forte e negro.
Do quinto ergueu-se uma torre de pedras cinzentas e pesadas.
Do sexto, finalmente, um peão. Carregando chapéu, laço e calçando - claro - botas.
- Ó Rei, vive para sempre!
O Rei deu um passo em sua direção.
- Carrego comigo um lampião e tenho como companhia um mortal com olhos vendados.
- Não me deve explicações Bobo. Deve apenas divertir-nos.
Nesse momento iniciou-se uma música (leitor nesse momento solicito ouvir a melodia sugerida e prosseguir a leitura: http://www.youtube.com/watch?v=8PQsRH3GSdU).
A Rainha fixou o olhar no bobo. Caminhou até ele. Deixou cair seu manto. E juntos travaram uma dança. Uma dança quente. Onde era possível observar fagulhas de um olhar para o outro.
Mãos deslizavam.
Pernas subiam.
O ar se enrubesceu ainda mais.
Os retalhos coloridos desapareceram.
Até que a música foi interrompida por um estrondo.
Todos se voltaram e contemplaram a torre ruir sobre o Bispo.
Pedras rolaram para todos os lados e o corpo do Bispo tombou sobre o chão.
O peão abaixou a cabeça, segurou o chapéu contra o peito e voltou para sua caixa.
O cavalo relinchou e num impulso saltou sobre a rainha e o bobo. Saltou três vezes. No terceiro salto paralisou no ar. E assim permaneceu.
A rainha removeu o chapéu do bobo. Abriu sua cabeça. E naquele vazio e escuridão pôs o lampião. Voltou o chapéu.
Caminhou até o Rei. Este se prostrou a seus pés em ato de reverência.
Estralou os dedos.
O cavalo lentamente retornou ao chão, caminhando até seu caixote, seguido pelo Rei e pela Rainha.
Aos poucos a luz azul retornou.
O bobo caminhou em direção ao homem.
- Desperta-te.
O homem aturdido sentou-se.
O bobo então retirou a venda de seus olhos.
O homem contemplou o baú e o abriu. De dentro saltaram penas coloridas. Saltavam e retornavam. Ficaram nesse movimento constante e o homem observava admirado.
- Já não preciso da bola e carrego o lampião.
O homem o observou, sem entender.
- Partirei e deixarei contigo a última bola de meu chapéu.
Retirou-a e a depositou próxima ao homem.
Lentamente partiu.
Saltar. Retornar.
Assim continuavam as penas. Até que entediado fechou o baú.
Olhou para o vazio.
Levou a mão até o peito.
Nada.
Nenhum som.
Oco.
Olhou para a bola depositada ao seu lado que começou a encher-se e a colorir-se.

4 comentários:

  1. Leia bem o que agora escrevo, um dos mais complexos daqui do Esquina, mas assim como os outros repleto de inteligência, sabedoria, humor e com todo o resplendor que um lampião gigantesco que vive em seu ser pode conter. Parabéns Bi.

    Mr. Ale.

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  2. O bobo segurou as mãos do homem. Encaminhou-as em direção ao lampião. Percorreram, exploraram, sentiram.
    - Que forma engraçada possui seu lampião.
    - Não é meu. É da bola.

    Fabuloso!

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  3. Ora, ora, ora. Se eu soubesse que uma Esquina como esta fosse tão divertida, viveria numa. Ou melhor dizendo, na Esquina surreal.

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